Resposta a um ateu


A maior distância entre dois homens é o desentendimento, não existe maior lacuna do que a do acreditar que o outro conheça ou acredite naquilo que você adquiriu através de todo um histórico de vida.

Quando se tem consciência que toda idéia é carregada de um histórico pessoal, podemos perceber que todo julgamento é uma confissão.”

O ateu por definição é uma pessoa ignorante não apenas da religião mas de toda a universalidade de conhecimento humano que fica além do que a ciência possa explicar. Como a ciência trata apenas do método de validação de nossas percepções com os nossos rascunhos de nosso conhecimento, sua abrangência se torna bastante curta.

Muitas discussões se tornam vãs quando se tenta de um lado, defender as premissas de alguma religião, como a Bíblia e de outro lado se contestar com premissas cientificas, pois fica pontual e o resultado é precário. Na maioria das vezes, acaba se caindo no uso de falácias e criticas sobre a linguagem como as falhas no discurso empregado. Nada mais do que o uso desavergonhado do lado mecânico do cérebro.

Para uma alternativa em terceira via, sugerimos as leitura de obras de matemáticos que estão imunes aos conceitos pré-determinados da religião ou das respostas dos desejos dos pseudo-cientistas que tudo querem explicar, sem nada entender.

Como o “Discurso do método” de René Descartes, que resumiu a situação humana em “todas as nossas qualidades provém de Deus e todas as nossas falhas são nossas“, essa visão que partiu da lógica e experiência de vida de Descartes acaba por confirmar a simbologia tratada na criação do homem, que segundo a Bíblia, após tê-lo feito do barro, assoprou lhe as narinas dando a vida, existe uma parte nossa que veio do mundo (barro) e outra dada por Deus (sopro divino) e com isso, conseguimos criar de tal forma, que as nossas obras recebem uma parte de nossa energia, como se fosse uma marca.

As religiões tem a premissa de serem formadas por pessoas falíveis de um lado e por um Deus infalível por outro e quando vemos Nosso Senhor anunciar os sofrimentos que iriam se seguir em Mt 16,13-23, vemos Pedro, o nosso primeiro Papa lhe repreender e sendo respondido por Nosso Senhor – “Vai para longe, Satanás! Tu és para mim uma pedra de tropeço, porque não pensas as coisas de Deus, mas sim as coisas dos homens!”

Se até o primeiro Papa caiu perante as ilusões do mundo, porque seus sucessores não poderiam cometer os mesmos deslizes e qual o motivo de Deus nãos nos ignorar por total e definitiva maneira. Ele nos ama de tal forma que não importa o quanto caímos, ele irá sempre nos perdoar. Será que vale a pena a nós amarmos a Deus?

Blaise Pascal responde:

  • se acreditar em Deus e estiver certo, terei um ganho infinito;
  • se acreditar em Deus e estiver errado, terei uma perda finita;
  • se não acreditar em Deus e estiver certo, terei um ganho finito;
  • se não acreditar em Deus e estiver errado, terei uma perda infinita.

Incapacidade de acreditar

Pascal referenciou a dificuldade que temos em diferenciar a razão e o processo de “racionalidade”, pondo em contraste com a ação de genuinamente acreditar em algo, propondo que: ” atuar como se [alguém) acreditasse” pode “curar (alguém) de não acreditar”. Nesse ponto cabe aquilo que os cientistas chamam de “necessidade de acreditar”, o ser humano por natureza precisa acreditar em algo, porém quando retiramos dele a possibilidade de acreditar em coisas boas como as oferecidas pela religião, moral e bons costumes, o que lhe restará a não ser acreditar em coisas vãs e efêmeras. Como no final da frase de C.S. Lewis, “neguem-lhe comida e beberá veneno”.

Análise através da teoria da decisão

As possibilidades definidas pela aposta de Pascal podem ser pensadas como uma escolha em indecisão com os valores da matriz de decisão seguinte:

Deus existe (G)Deus não existe (¬G)
Acreditar (B)+∞ (ganho infinito)−1 (perda finita — 1 vida)
Não acreditar (¬B)−∞ (perda infinita)+1 (ganho finito — 1 vida)

Assumindo estes valores, a opção de viver como se Deus existisse (B) supera a opção de viver como se Deus não existisse (¬B),desde que se assuma a possibilidade da existência de Deus. Noutras palavras, o valor esperado de se escolher B é maior ou igual àquele de escolher ¬B. A perspectiva do ganho infinito é suficiente para Pascal fazer seu ponto, como ele afirma:

De fato, de acordo com teoria da decisão, o único valor que importa na matriz acima é o +∞ (infinito não negativo). Qualquer matriz do seguinte tipo (em que f1, f2, and f3 são todos números finitos positivos ou negativos) resultam em (B) ser a única escolha racional. Jeff Jordan argumenta que a aposta também pode ser reescrita como uma tabela de decisão sem considerar os valores infinitos, e segundo Edward McClenen existem, na verdade, 4 versões diferentes para o argumento em Pensées.

Deus existe (G)Deus não existe (¬G)
Crença (B)+∞f1
Descrença (¬B)f2f3

Argumento do Apelo ao Medo

Alguns documentos na internet argumentam que é uma falácia do tipo Argumentum ad metum (ou Argumento pelo/do medo), uma vez que ela afirma que ao não se acreditar no Deus cristão, a perda infinita implicaria ser severamente punido após a morte. Embora , o argumento é sem fundamento, pois Pascal prevê que a decisão pela crença em Deus seja uma escolha baseada em chances e não motivada pelo medo. O argumento de Pascal não tem como objetivo provar que Deus existe ou não, mas convencer o descrente que é uma escolha razoável apostar na sua existência. De fato, o uso do argumento do Apelo ao Medo por críticos apenas reforça a aposta de Pascal, já que este afirma em Pensées:

Os homens desprezam a religião; eles a odeiam, e temem que ela seja verdade. Para remediar isto, nós devemos começar por mostrar que a religião é contrária a razão; que é venerável, para inspirar respeito a ela; então devemos torná-la amável, para fazer com que bons homens esperem que seja verdade. Finalmente, devemos provar que é verdade. Pensées Secão III nota 187 página 31, Tradução por Rafael S. T. Vieira

Coloco aqui o seguinte exemplo: o ateu pergunta a um religioso se este teme o pos-mortem em que suas crenças poderiam estar erradas e nada lá encontrariam. A resposta é não, pior estaria você sendo descrente e lá chegando, descobrir que tudo é verdade.

Uma vida regrada seguindo a moral e os bons costumes não dá maior “lucro” que uma vida libertina ao se apostar numa possível vida após morte. SE não existe recompensa e nem castigo, quem desses ganhou mais?

Argumento do Custo

Outro argumento contra o argumento de Pascal, é do Custo. A aposta tentaria nos levar a acreditar em Deus, com o pressuposto que isto é muito vantajoso você estando certo e insignificante se estiver errado. E o preço a pagar por crer não é insignificante, pois a pessoa pode precisar seguir líderes religiosos, seguir dogmas e tradições, e contribuir financeiramente para manter a religião. E mesmo que uma pessoa não tenha religião, mas mantenha fé na existência de algum deus, esta fé poderá ter consequências. Pode ser citado como exemplo o caso de Steve Jobs, que era zen-budista e acreditava na ideia do pensamento mágico, e por isso, segundo seu biógrafo, tomou uma decisão errada em relação ao tratamento do seu câncer que levou a sua morte. (contudo, existe quem afirme que muitos boatos foram criados sobre sua morte, e que ele recebia tratamento para sua doença). Outro exemplo , é da filha do ex-jogador de futebol ,Pelé, chamada Sandra Regina Machado, que se negou a receber tratamento médico, para seu câncer, pois tinha fé que sua cura seria milagrosa. Seu médico afirmou que sua cura era garantida se ela mantivesse o tratamento, mas sua escolha por uma cura pela fé a levou a óbito. Bob Marley deixou de amputar seu dedo do pé com câncer devido a sua religião, Rastafari, pois acreditava que o corpo é um templo que ninguém pode modificar. O câncer se espalhou e o levou a morte. 

Contudo, estudos apontam que pessoas com fé adoecem menos e se adoecerem, sua resposta aos tratamentos médicos são mais rápidas e eficazes. O autor acima ignora as imensas listas de pessoas curadas pela fé e seus testemunhos.

O custo, contudo, de viver-se acreditando em Deus não é considerado na aposta, pois o objeto de aposta é a sua vida. Quando Pascal fala em custo zero em sua aposta, ele se refere ao custo referente a felicidade (entre outros custos específicos que ele cita e lida) na nota 233: “E quanto a sua felicidade? Vamos pesar o ganho e perda em apostar que Deus existe. Vamos estimar essas possibilidades. Se você ganhar, você ganha tudo; se perder, você não perde nada” E ao final de seu discurso na nota 233 ainda afirma:

Agora, que danos podem cair sobre você ao escolher seu lado?…eu argumentaria que você irá ganhar nesta vida, e que cada passo nesta estrada, você terá cada vez mais certeza do ganho, e muito mais ainda do vazio do que você aposta, que você irá ao menos reconhecer que você apostou por algo certo e infinito, pelo qual você não precisou entregar nada. Pensées Seção III nota 233, página 40, Tradução por Rafael S. T. Vieira

O erro de Pascal neste argumento, é que não existe nenhum vestígio de que a intensidade da felicidade seja menor entre os que não acreditam na existência de Deus. Pode-se perceber que em sua aposta, supõe-se que o ganho infinito de apostar em Deus supera qualquer custo que possa existir em vida. Pascal ainda argumenta que quanto mais se dedica crer em Deus, menos se enxerga valor nos objetos do mundo, que são passageiros e portanto o custo se torna insignificante.

Mais um trecho onde o autor, confessadamente ateu se prova ignorante, como diz Lord Chesterton, “o pior momento do ateu é aquele em que se sente agradecido e não sabe a quem agradecer“, a fé é um modo de vida que somente aquele que a vive pode realmente conhecer e criticar e parafraseando Arthur Schopenhauer, “se um ateu dá conselhos sobre religião, ele não deveria“, pois a frase “ateu ignorante” não deve ser usada, pois é apenas um pleonasmo.

Argumento dos Vários Deuses

Em seu Pensée #226, Pascal não se aprofundou no assunto, dizendo que aqueles que argumentam sobre este ponto são céticos que se recusam a buscar a verdade e se contentam em ficar de olhos fechados. Jeff Jordan vai além, defendendo que não há como formular a objeção dos Vários Deuses de forma a realmente refutar o argumento de Pascal. Robert Peterson argumenta que esta objeção quando colocada no contexto da Aposta de Pascal se torna vazia, pois considera apenas 5 páginas de Pensées (com a aposta) e esquece o restante das quase 300 páginas do livro (o número de páginas varia de acordo com a tradução/edição), em que Pascal defende apenas o Deus cristão e dedica um capítulo exclusivo para falar da falsidade de outras religiões. Jeff Jordan ainda arguiu que ao se atribuir uma probabilidade quase nula a todos os outros Deuses, a probabilidade de existência de Deus continua sendo 50% e cita o caso do lançamento de uma moeda.

Quando alguém lança uma moeda considerada justa, é possível que ela aterrisse em seu meio, continue suspensa no ar, desapareça, ou qualquer outro evento bizarro aconteça. Ainda assim, como não há nenhuma razão para acreditar que esses eventos são plausíveis, nós negligenciamos todas essas possibilidades e consideramos apenas a chance da moeda aterrissar sobre o lado da cara ou o lado da coroa. Jordan, Jeff. “The Many-Gods Objection” in Gambling On God, Tradução por Rafael S. T. Vieira

Argumento da Crença Desonesta

Alguns críticos argumentam que a aposta de Pascal pode ser um argumento para a Crença Desonesta. Além disso, seria absurdo pensar que um Deus, justo e onisciente, não seria capaz de ver atrás da estratégia da parte do “crente”, portanto anulando os benefícios da aposta.

Já que essas críticas não estão preocupadas com a validade da aposta em si, mas com o possível resultado — uma pessoa que foi convencida pelo argumento e que ainda não consiga acreditar sinceramente —, elas são consideradas tangenciais ao argumento. Aquilo que estes críticos estão questionando é tratado posteriormente por Pascal que oferece um conselho para o descrente que concluiu que o único método racional é apostar na existência de Deus, já que apostar não o torna um crente.

Outra prova do autor desconhecer o interim de uma religião, teoricamente nem deveríamos rezar, pois Deus que conhece o interior de nosso coração, já sabe se aquilo que pedimos ou agradecemos é honesto ou não, porém o exercício da oração altera a nossa frequência cerebral de tal forma que isso mude a nossa visão de mundo. Assim como, os atos de bondade e altruísmo sem intenções de receber nada em troca são válidos.

Outros críticos arguem que Pascal ignorou que o tipo de caráter epistêmico de Deus certamente valorizaria mais criaturas racionais se ele existisse. Mais especificamente, Richard Carrier apontou uma definição alternativa de Deus que prefere que suas criaturas sejam pesquisadoras honestas e reprova os métodos da Crença Desonesta:

_Suponha que exista um Deus que está nos observando e escolhendo que almas dos mortos deve trazer para o céu, e este Deus quer que apenas aqueles que são moralmente bons habitem no céu. Ele provavelmente vai selecionar somente aqueles que fizeram um esforço significante e responsável para descobrir a verdade…Portanto, apenas estas pessoas podem ser suficientemente morais e sinceras para merecer um lugar no paraíso — ao não ser, que Deus deseje preencher o céu com os moralmente preguiçosos, irresponsáveis ou desonestos. The End of Pascal’s Wager: Only Nontheists Go to Heaven

Como já foi exibido acima, em nenhum ponto da aposta Pascal reforça a crença desonesta; Deus, sendo onisciente, não sucumbiria a um truque e, oniscientemente, recompensaria o enganador. Ao invés disso, depois de estabelecer sua aposta, Pascal refere-se a uma pessoa hipotética que já pesou irracionalmente a crença em Deus através da aposta e está convencido da possibilidade, mas ainda não conseguiu acreditar. De novo, como notado acima, Pascal oferece uma maneira de escapar do sentimento que o compele a não crer em Deus depois que a validade da aposta tenha sido firmada. Este caminho é através da disciplina espiritual, estudo e comunidade, em resumo, viver a fé.

Em termos práticos, portanto, o cenário alternativo em que Deus valoriza apenas a crença racional e dúvida honesta que é proposta por Carrier e outros críticos não é realmente diferente do argumento de Pascal. Na verdade, Pascal é bastante incisivo em sua crítica contra pessoas que são apáticas sobre considerar o problema da existência de Deus.

Não caberia aqui tudo aquilo que os ateus ignoram como a espiritualidade, o esoterismo e o hermetismo, que se referem as transformações interiores do homem que realmente segue uma religião. Pois esses não são visíveis e assim como Deus, além das capacidades de prova da ciência.

A ausência de evidência não significa evidência da ausência.” Carl Sagan

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