Conto: A caverna II – Morrer é preciso


A caverna II – Morrer é preciso

Os homens, é assim que esses seres se denominam, homens. São estranhos, curiosos e muito perigosos, principalmente para eles mesmos. Continuou a observar aquele grupo, sempre a distância, até um dia. Outro grupo havia entrado na área de caça e isso não foi bem recebido. O ser da caverna olhava tudo com especial interesse no resultado. O combate fora desorganizado e bem mais afoito do que planejado, o que culminou na queda de um dos locais. Os outros, seus colegas, nem perceberam e se puseram a perseguir os invasores.

Com uma forma bastante peculiar, se aproximou do ser caído, analisando sua constituição e a gravidade dos ferimentos. Nada de mais, apenas um pouco de energia e algumas torções e ele não morreria mais, mas não havia nem consciência do que lhe ocorrera. Após esse ocorrido, pode constatar as diferenças entre suas espécies e as semelhanças. Montado em sua mente um quebra cabeça sobre que futuro seria reservado para aquela espécie.

Para sua surpresa, após alguns dias, na entrada de sua caverna, apareceram muitos objetos, jarros e folhas e sobre esses, frutas e algum tipo de alimento. Ele fora descoberto, os tais homens começaram a lhe render veneração devido aquele que ele salvara e de alguma forma descobriu o que lhe havia acontecido. Infelizmente nada ali lhe agradaria, sua espécie não costumava se alimentar de outros seres, apenas energia.

Não precisamos dizer qual foi sua reação ao encontrar sentado ao lado da entrada, aquele que ele havia salvo. Os olhos grandes e parados, sem uma expressão qualquer de surpresa. Apenas um esperar, calmo e resignado. O que será que queria esse ser. Os resultados de sua analise, estavam lhe saltando aos olhos. O ser que ali estava, era jovem e forte em comparação dos outros e apesar das diferentes espécies, havia um contato mental que ele não esperava. Aqueles que ele observara, não estavam tão atrasados como parecia. Ficaram ali por algum tempo, o jovem pronunciou palavras estranhas como numa reza e num breve agradecimento, fez um gesto de reverência e foi embora.

No breve contato que tiveram, ele também pode sondar sua mente. O jovem acredita que ele é um deus ou anjo e que não é desse mundo. Dai em diante sua vida mudou completamente, todos os dias, o jovem vinha, se ajoelhava e entoava alguns cânticos ou rezas. Mas o que gradativamente ocorreu com o passar do tempo foi, conhecer o povo daquele lugar e as idéias que eles tinham do ser da caverna, como por exemplo, o jovem fora denominado seu sacerdote, pois ele era aquele que o ser havia tocado, e esse termo passou tanto a designar o toque físico, como o toque espiritual. Ele, portanto, era o único que podia ver e se comunicar com o “deus da caverna”, as preces que ele elaborava nessas visitas começaram a ser tidas como de “inspiração divina”. Poderia até se zangar com o rapaz, pois ele passava ao seu povo, ordens, como se o outro as ditasse. Mas o jogo era interessante e ambas as partes tinham seus próprios benefícios. Foram formadas lendas, como que ele veio do “céu”, num sentido espiritual e religioso. Realizava milagres, enquanto estivesse feliz com o povo, como abençoar as colheitas, as coletas de frutas e dar boa sorte aos homens, nas caçadas. Fatos que ocorriam ou por coincidência ou mais pela fé do povo. Quem iria saber!

Mas a sua passividade iria acabar, após algum tempo, ele vira o jovem se tornar um adulto e este era o responsável pelo seu povo. Nunca pedia nada, somente se curvava a sua frente e orava. Um dia, ele apareceu de forma diferente, trazia ao colo uma criança e lhe depositou a sua frente. Rapidamente percebeu que se tratava de um acidente, e que este fora fatal. A criança estava morta, mas o homem suplicava, não apenas por palavras, mas com toda a força de seu ser. Suplica por um milagre. Ele não podia entender a diferença entre aquele menino e o que lhe ocorrera tanto tempo antes.

Havia apenas uma solução, decisiva e irreversível, dar a vida por aquele jovem. Fato que ele imaginara, mas que nunca tivera coragem de confessar. Se ele fizesse isso, seria a primeira vez, de muitas mais. Deixaria o velho corpo e entraria no novo. Sem dizer uma palavra, pediu ao sacerdote depositar o corpo na caverna e que saísse. Aquilo que ele fez prontamente e sem um pingo de duvida.

Passado algum tempo, numa espera angustiante, eis que o menino aparece na porta da caverna. Vivo e radiante, o sacerdote o abraça e se lembra de entrar e agradecer, mas ao entrar encontra o ser da caverna sentado numa rocha, petrificado como se fosse parte da caverna. O homem não teve duvidas em contar ao povo que o “deus da caverna” dera a vida pelo seu filho e mostrava a criança saudável para todos, as cicatrizes e não se cansava de contar a sua história enquanto viveu. O povo fechou a caverna com pedras, para eles, o deus estava morto, havia voltado para o seu mundo.

Enquanto isso, para o ser da caverna, num novo corpo, uma nova jornada se iniciava.

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1 Comentário

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